December 21, 2009

A INVASÃO SILENCIOSA DA VISUALIDADE

Verônica Daniel Kobs anfib@bol.com.br http://www.uniandrade.edu.br/links/menu3/publicacoes/scripta/2007.pdf#page=59

ARIANO SUASSUNA 1927-

“A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto… Nunca vi um gênio com gosto médio.”

“tradução intersemiótica”, de Julio Plaza,

Com uma linguagem própria, o cinema, mesmo emprestando textos literários, opera o que Julio Plaza chama de “tradução intersemiótica”, qualificada pelo autor como “prática artística” que “se consuma como recepção produtiva” (PLAZA, 2003, p. 209).

Para ele, a relação entre as duas artes é “conflituosa”, porque “cinema é visibilidade; literatura é invisibilidade” (BACK, 2005, p. 1 Há autores que são radicais ao defenderem a supremacia da literatura em relação ao cinema. É o caso de José Martínez Ruiz, que afirma, categoricamente: “El cine es literatura, si no es literatura, no es nada.” (apud CARDOSO, 2005, p. 1). Essa citação desconsidera filmes que não surgiram de obras literárias, ou seja, que não são adaptações Marinyse Prates de Oliveira, em seu artigo Laços entre a tela e a página, faz referência ao surgimento do videocassete como um marco do entrelaçamento entre literatura e cinema, já que as possibilidades oferecidas por esse aparelho, de adiantar e retroceder o filme, equivalem às possibilidades que o livro oferece ao leitor, de avançar algumas páginas e, principalmente, de voltar a determinadas partes, para tentar compreender melhor alguma parte da história. Nas palavras da autora: “O surgimento do videocassete, não há dúvida, possibilitou um aprofundamento dessa relação que já era naturalmente estreita. Ao facultar ao espectador interferir no processo de projeção, retrocedendo, adiantando ou interrompendo-o, o vídeo conferiu ao espectador do filme as facilidades de manuseio próprias do leitor de livros” (OLIVEIRA, 2005, p. 2)

Paulo Emílio de Salles Gomes vai além do parentesco entre literatura e cinema. Para ele, “o cinema é tributário de todas as linguagens, artísticas ou não, e mal pode prescindir desse apoio que eventualmente digere” (apud OLIVEIRA, 2005, p. 2). De todas essas linguagens, o crítico menciona a literatura e o teatro como as artes que têm mais afinidade com o cinema.

Ítalo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio, atentando para o fato da subjetividade da leitura, permitida pela própria natureza polissêmica do texto literário, menciona: “No cinema, a imagem que vemos na tela também passou por um texto escrito, foi primeiro ‘vista’ mentalmente por um diretor, em seguida reconstruída em sua corporeidade num set para ser finalmente fixada em fotogramas de um filme” (CALVINO, 1993, p. 99).

Quando trata das lacunas do texto literário, que, segundo Jorge Furtado e outros autores, já aparecem preenchidas, no filme, Umberto Eco diz que não pode ser esquecido o fato de o produto cinematográfico exigir também a colaboração do espectador: Também no filme, às vezes mais do que no romance, existem os “vazios” das coisas não ditas (ou não mostradas) que o espectador tem de preencher se quiser dar sentido à história. Aliás, se um romance pode ter páginas à disposição para tracejar a psicologia de um personagem, o filme, não raro, tem de limitar-se a um gesto, a uma fugaz expressão do rosto, a uma fala de diálogo. Então “o espectador pensa”, ou melhor, diria, deveria pensar. Como diz Fumagalli, “as técnicas da escrita dramatúrgica ensinam cada vez mais a trabalhar como se na tela só pudessem aparecer as pontas dos icebergs”, e freqüentemente “vemos um, mas — se prestarmos atenção — compreendemos dez”. (ECO, 2005, p. 98)

A afirmação de Eco sugere o encadeamento de leituras que oprocesso de adaptação de um texto literário inicia. Assim como o leitor/diretor deve preencher os “vazios” deixados pelo autor, na escrita do texto, do mesmo modo o  espectador deve completar as lacunas deixadas pelo diretor, que de leitor passa a autor do filme, quando opta por apresentar sua leitura particular, ao adaptar um texto.

CONCLUSÃO

Apesar de o diálogo interartes ser, atualmente, encarado como indício da pós-modernidade, já que esse período caracteriza-se “por uma imensa inflação babélica de linguagens, códigos e hibridização dos meios tecnológicos que terminam por homogeneizar, pasteurizar Scripta Uniandrade, n. 05, 2007 67  e rasurar as diferenças: tempo de mistura” (PLAZA, 2003, p. 206), a relação da literatura com as outras artes é já conhecida e, para resgatála,  basta voltarmos ao período de transição entre os séculos XIX e XX.

A poesia concreta – uma ilnfluência para a comunicação do metrô? Iniciais minúsculas, que sobrepõe-se, com uma tipografia arial em um degradê de cores…

A aceleração do processo que fazia a visualidade interferir de modo significativo no discurso literário alcançou seu auge com a poesia concreta, que, entre outras coisas, pretendia se valer da rapidez da imagem. Hoje, muito mais que antes, rapidez e pressa são palavras importantes para a sociedade contemporânea e o cinema, por atingir um grande público, incluindo as massas, combina com essa era cyber do mundo globalizado. Através dos avanços tecnológicos, o cinema evolui constantemente e oferece um produto “pronto”, com acabamento de qualidade cada vez maior e que pode ser consumido em poucos minutos

homem sem leitura – homem oco

Muito se tem perguntado se a palavra não estaria superada pela visualidade, velocidade e fragmentação transformada em espetáculo, que marcam esta nossa era da imagem. Todos nós sabemos que aí está um dos “nós górdios” do nosso tempo. Está mais do que evidente que estamos vivendo em plena civilização da imagem. Quer dizer, somos trabalhados diariamente, de manhã  Scripta Uniandrade, n. 05, 2007 69 à noite, pela imagem, pela comunicação direta, visual, de contato direto, rápido… Mas há já algum tempo se vem descobrindo que só esse contato  não basta para a dinamização interior do indivíduo, para o desenvolvimento de suas potencialidades, de maneira plena… Para esse estímulo, a leitura é fundamental. É o contato, a interação íntima do eu com a palavra escrita, com o texto, que o leva a desenvolver aquilo que o define como ser humano:

a sua própria expressão verbal, sua fala, sua linguagem, sua própria palavra, sem a qual não há nenhuma relação profunda entre o eu e os outros que o rodeiam. Inclusive a leitura da imagem exige a palavra, a linguagem verbal, pois não existe imagem que possa ser compreendida sem ser “pensada”, isto é, transformada em palavras. (COELHO, 2007, p. 3)

A imagem, domínio também da publicidade, deve ser, como qualquer outro produto, analisada, para depois ser consumida, e a criticidade é mais motivada pela escrita, porque essa, ao contrário do cinema, não depende tanto da  concretização. Cabe, aqui, para reforçar essa idéia, recuperar o clichê  de que “ler liberta”. Claro que o filme, lembrando o que postula Umberto Eco, deve ser também interpretado, mas as imagens balizam ou limitam um pouco mais o receptor do que a escrita. Resgatando  também a concepção de Calvino e as colocações de Jorge Furtado, apresentadas anteriormente, a imagem também é dotada de polissemia, mas a cena vista é a concretização da leitura do diretor e, portanto, subjetiva, além de ser, talvez, radicalmente diferente daquela que o leitor/espectador  imaginou, ao ler o texto que foi adaptado para as telas.

REFERÊNCIAS

BACK, S. Cinema e literatura. Disponível em: http://www.ufmg.br/online/arquivos/000574.shtml. Acesso em: 23 jul. 2005. 70 Scripta Uniandrade, n. 05, 2007

CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

CARDOSO, L. M. O. de B. Literatura e cinema: simbioses narratológicas. Disponível em: http://www.ipv.pt/forumedia/5/17.html. Acesso em: 23 jul. 2005.

CLÜVER, C. Estudos interartes: conceitos, termos, objetivos. Literatura e sociedade: revista de teoria literária e literatura comparada. São Paulo, n. 2, p. 37-55, 1997.

COELHO, N. N. Literatura: um olhar aberto para o mundo. Disponível em: http://www.collconsultoria.com /artigo7.htm. Acesso em: 02 jun. 2007.

ECO, U. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

_____. A diferença entre livro e filme. Entre livros, ano 1, n. 7.

FURTADO, J. A adaptação literária para cinema e televisão. Disponível em: http://www.casacinepoa.com.br/port/conexoes/adaptac.htm. Acesso em: 23 jul. 2005.

OLIVEIRA, M. P. de. Laços entre a tela e a página. Disponível em: http:// http://www.joaogilbertonoll.com.br/estudos.html. Acesso em: 23 jul. 2005.

PAVIS, P. Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva, 1999.

PLAZA, J. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003.

SILVA, V. M. de A. e. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1988.

Verônica Daniel Kobs Doutoranda em Estudos Literários pela UFPR. Mestre em Literatura Brasileira pela UFPR. Coordenadora pro tempore do Curso de Letras da UNIANDRADE.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: