December 21, 2009

Guy Debord

APOLOGIA DA DERIVA

Escritos situacionistas sobre a cidade

Internacional Surrealista – Paola Berenstein Jacques – organização; Estela dos Santos Abreu, tradução – Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2003

Prefácio – Carlos Roberto Monteiro de Andrade

“A Internacional  Situacionista buscava a constituição de novas territorialidades que resgatassem as múltiplas formas de nomadismo que as cidades modernas foram progressivamente esquadrinhando, restringindo, fixando e confinando, com o fim de aniquilá-las por completo”

Apresentação:

“A Internacional Situacionaista (IS) – grupo de artistas, pensadores e ativistas – lutava contra o espetáculo, a cultura espetacular e a espetacularização em geral, ou seja, contra a não-participação, a alienação e a passividade da sociedade. O principal antídoto contra o espetáculo seria o seu oposto: a participação ativa dos indivíduos em todos os campos da vida social, principalmente no da cultura.”

Gilles Dauvé em “A internacional Situacionista Revisitada” (http://www.velhatoupeira.hbe.com.br/pdfs/internacionalsituacionistarevisitada.pdf ) sintetiza:

“O espectáculo não é a sua própria causa. Está enraízado nas relações de produção, e pode apenas ser compreendido através dum entendimento do capital e não inversamente. É a divisão do trabalho que transforma o trabalhador num espectador do seu trabalho, do produto desse trabalho e finalmente num espectador da sua vida. O espectáculo é a nossa existência alienada em imagens que se alimentam dela, o resultado autonomizado dos nossos actos sociais. Começa em nós e separa-se de nós através da representação universal das mercadorias. Torna-se exterior às nossas vidas porque as nossas vidas constantemente reproduzem a sua exteriorização.”

Em um dos textos da revista da Internacional Situacionista, a Potlach, um manifesto, a constatação:

“Os funcionalistas ignoram a função psicológica da ambiência (…) o aspecto das construções e dos objetos que nos cercam e que utilizamos possuem uma função independente de seu uso prático (…) Os racionalistas funcionalistas, por causa da sua homogeneização, imaginaram que só pode alcançar as formas definitivas, ideais, de diferentes objetos que interessam ao homem. A evolução hoje mostra que esta concepção estática estava errada. Pode-se chegar a uma concepção dinâmica das formas, pode-se ver essa verdade: toda forma humana está em transformação. A falha dos racionalistas foi não ter compreendido que a única maneira de se evitar a anarquia da transformação consiste em entender suas leis internas, e utilizar-se delas”

(Polacha no. 15, 22 de dezembro de 1954, do texto “Une architeture de La vie”, assinado por Asger Jorn)

Crítica a museificação das cidades pelos situacionistas: ao por em dúvida a transformação dessas cidades em espetáculos urbanos estáticos e não-participativos através da idéia do urbanismo unitário (UU). “Primeiro o urbanismo unitário não é uma doutrina de urbanismo, mas uma crítica ao urbanismo” (idem)

A importância atual do pensamento situacionista sobre a cidade está exatamente na enorme força crítica que ainda emana dessas idéias. Como parte integrante, importante e central, de uma crítica situacionista bem mais vasta – artítista, social, cultural e, sobretudo, política – está a problemática urbana e, principalmente, a críotica à própria disciplina que surge da modernização das cidades: o urbanismo.

Proposta de uma psicogeografia – tem início com os letristas, reunidos em torno de Debord, que de certa forma já anunciavam algumas idéias, práticas e procedimentos que depois formaram, estas,  a base de todo pensamento urbano situacionista.

Já no primeiro número de Potlatch (junho de 1954) há uma proposta de psicogeografia:

Em função do que você procura, escolha uma região, uma cidade de razoável densidade demográfica, uma rua com certa animação. Construa uma casa. Arrume a mobília. Capriche na decoração e em tudo que a completa. Escolha a estação e a hora. Reúna as pessoas mais aptas, os discos e a bebida convenientes. A iluminação e a conversa devem ser apropriadas, assim como o que está em torno ou suas recordações. Se não houver falhar no que você preparou, o resultado será satisfatório.

Experiência psicogeaográfica – diretamente ligada à prática da deriva; vários textos letristas comentavam e propunham diferentes derivas, entre eles o Resumé 1954, assinado por Debord e Fillon (PotlachI n. 14, novembro de 1954)

As grandes cidades são favoráveis à distração que chamamos de deriva. A deriva é uma técnica de andar sem rumo. Ela se mistura à influência do cenário. Todas as casas são belas. A arquitetura deve se tornar apaixonante. Nós não saberíamos considerar tipos de construções menores. O novo urbanismo é inseparável das transformações econômicas e sociais felizmente inevitáveis.

Os situacionistas e a cidade

Os situacinistas chegaram a uma conclusão exatamente contrária a dos arquitetos modernos. Enquanto os modernos acreditaram, num determinado momento, que a arquitetura e o urbanismo poderiam mudar a sociedade, os situacionistas estavam convictos de que a própria sociedade deveria mudar a arquitetura e o urbanismo.

“A arquitetura é o meio mais simples de articular tempo e espaço, de modular a realidad, de fazer sonhar. Não se trata apenas de articulação e de modulação plásticas, expressão fugaz da beleza. Mas de modulação influencial, que se inscreve na eterna curva dos desejos humanos e do progresso na realização desses desejos”

(Gilles Ivain – IS no. 1, junho de 1958 (1953) ).

Pensamento urbano-situacionista

Talvez seja exagerado falar de uma verdadeira teoria urbana situacionista, a não ser que seja considerada a etimologia grega do termo theôrien: observar. Mas a crítica urbana situacionista teve efetivamente uma base teórica, sobretudo de observação e experiência da cidade existente. Pode-se considerar a reunião das idéias, proceidmentos e práticas urbanas situacionistas como um pensamento singular e inovador, que poderia ainda hoje inspirar novas experiências, interessantes e originais, de apreensão do espaço urbano (…) Assim como não existiu uma forma situacionista material de cidade mas sim uma forma situacionista de viver, ou de experimentar, a cidade. Quando os habitantes passassem de simples espectadores a construtores, transformadores e “vivenciadores” de seus próprios espaços, isso sim impediria qualquer tipo de espetacularização urbana.

Por que crítica ao espetáculo?

A construção de situações começa após o desmoronamento moderno da noção do espetáculo. É fácil ver a que ponto está ligado à alienação do velho mundo o princípio característico do espetáculo: a não-participação. Ao contrário, percebe-se como as melhores persquisas revolucionárias na cultura tentaram romper a identificação psicológica do espectador com o herói, a fim de estimular esse espectador a agir, instigando suas capacidades para mudar a própria vida. A situação é feita de modo a ser vivida por seus construtores. O papel do “público”, se não é passivo pelo menos de mero figurante, deve ir diminuindo, enquando aumenta o número dos que já não serão chamados atores mas, num sentido novo do termo,  vivenciadores”

(DEBORD, G. “Relatório sobre a construção de situações e sobre as condições de organização e de ação da tendência situacionista internacional”)

Construção de situações:

“Nossa idéia central é a construção de situações, isto é, a construção concreta de ambiências momentâneas da vida, e sua tranformação em uma qualidade passional superior. Devemos elaborar uma intervenção ordenada sobre os fatores complexos dos dois grandes componentes que interagem continuamente: o cenário material da vida; e os comportamentos que ele provoca e que o alteram” (idem)

Conceito de situações:

“O que você chama momentos, nós chamamos situações, mas estamos levando isso mais longe que você. Você aceita como momento tudo que ocorreu na história: amor, poesia, pensamento. Nós queremos criar momentos novos”

Definição da psicogeografia:

“Para tentar chegar a essa construção total de um ambiente, os situacionistas criaram um procedimento ou método, a psicogeografia, e uma prática ou técnica, a deriva, que estavam diretamente relacionados. A psicogeografia foi definida como “um estudo dos efeitos exatos do meio geográfico, conscientemente planejado ou não, que agem diretamente sobre o comportamento afetivo dos indivíduos”. E a deriva era vista como um “modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana: técnina de passagem rápida por ambiências variadas. Diz-se também, mais particularmente, para designar a duração de um exercício dessa experiência”. Ficava claro que a deriva era o exercício prático da psicogeografia e, além de ser também uma nova forma de apreensão do espaço urbano, ela seguia uma tradição artística desse tipo de experiência.

Método:

“A psicogeorgrafia estudava o ambiente urbano, sobretudo os espaços públicos, através das derivas e tentava mapear os diversos comportamentos afetivos diante dessa ação básica do caminhar na cidade”

“Psicogeográfo seria “o que manifesta a ação direta do meio geográfico sobre a afetividade””.

Possíveis relações da psicogeografia com a esquizoanálise:

“A psicogeografia seria então uma geografia afetiva, subjetiva, que buscava cartografar as diferentes ambiências psíquicas provocadas basicamente pelas deambulações urbanas que eram as derivas situacionistas.”

Talvez a importância desse estudo seja a promoção das expeirências afetivas a partir dos espaços (públicos).

Circulação de idéias situacionistas no campo do urbanismo:

“O urbanismos pretensamente moderno que os senhores preconizam, nós o consideramos passageiro e retrógrado. O único papel da arquitetura é servir às paixões dos homens”(texto coletivo publicado na Potlatch n 23, outubro de 1955)

Os situacionistas acreditavam que era no espaço urbano que se dava a repressão social e o urbanismo estava a serviço dessa repressão.

Método para a construção de ambiências ou situações:

“Devemos construir ambiências novas que sejam ao mesmo tempo produto e instrumento de novos comportamentos. Para tal convém utilizar empiricamente, no início, as condutas cotidianas e formas culturais existentes, mas contestando os seus valores”.

Deriva

Uma primeira tentativa de um novo modo de comportamento já foi obtida com o que chamamos de deriva, que é a prática de uma superação passional pela mudança rápida de ambiências, aoo mesmo tempo que um meio de estudo da psicogeografia e da psicologia situacionista.”

(…)

“O principal drama afeitivo da vida, após o perpétuo conflito entre desejo e a realidade hostil ao desejo, parece ser a sensação da passagem do tempo. A atividade situacionista constiste em apostar na fuga do tempo, ao contrário dos procedimentos estéticos que tendem a fixar a emoção. O desafio situacionista à passagem das emoções e do tempo seria o de superar sempre mais a mudança, indo ainda mais longe no jogo e na multiplicação dos períodos emocionantes.”

“Já se interpretaram bastante as paixões; trata-se agora de descobrir outras”

(Guy-Ernest Debord – Texto apresentado na conferência de fundação da Internacional Situacioista de Cosio d’Arroscia, julho de 1957)

QUESTÕES PRELIMNARES À CONSTRUÇÃO DE UMA SITUAÇÃO

“A construção de situações começa após o desmoronamento moderno da noção de espetáculo. É fácil ver a que ponto está ligado à alienação do velho mundo o princípio característico do espetáculo: a não-participação. Ao contrário, percebe-se como as melhores pesquisas revolucionárias na cultura tentaram romper a identificação psicológica do espectador com o herói, a fim de estimular esse espectador a agir… A situação é feita de modo a ser vivida por seus construtores. O papel do “público, senão passivo pelo menos de mero figurante, deve ir diminuindo, enquanto aumenta o número dos que já não serão chamados de atores mas, num sentido novo do termo, “vivenciadores”.

A realização completa do indivíduo, assim como na experiência artística que os situacionistas descobrem, passa forçosamente pela dominação coletiva do mundo; antes dela, ainda não há indivíduos, e sim fantasmas assombrando as coisas que lhe são confusamente oferecidas por outros. Encontramos, em situações esporádicas, indivíduos isolados que seguem ao acaso. Suas emoções divergentes se neutralizam e mantém o sólido ambiente enfadonho que os cerca. Destruiremos essas condições ao fazer surgir em alguns pontos o sinal incendiário de um jogo superior.”

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